ERA UMA VEZ UM ROMÂNTICO JORNAL IMPRESSO
Eu adoro papel. Já escrevi isso outro dia num texto sobre como é bom pegar o papel do jornal, cheirar, abraçar o livro, dormir em cima, carregar de lá pra cá, essas coisas...
Mas essa ligação vai mais além. Cada manhã vem um moço ali pelas 4 da manhã e coloca debaixo da porta da frente o jornal. Uma família está por trás desse moço.
Vendedores de jornal estão nas esquinas gritando e vendendo o jornal. Famílias estão por trás desses vendedores,
Leio, uso,amasso,marco, rasgo, corto, destaco, arquivo ou não e depois descarto.
Se eu descartar conscientemente meu jornal, mais famílias alimentadas estão por detrás dos catadores e das cooperativas de catadores de papel para reciclá-lo.
Fiz uma música, denominada 'Rua da Praia', que incorporou o grito do vendedor de 'Zero Hora' no corpo da canção, tal a minha ligação com a coisa...
Dirigi o Jornal Noroeste de Santa Rosa, de 88 a 90, e sou do tempo em que se colava os textos e se fazia fotolito do jornal, antes de imprimir.
Aqui uma pausa de saudade pelas fotos impressas, pois hoje é tudo dentro de um processo digital e a gente parece que nem tem noção de como é feito.
A parte romântica de fazer jornal foi-se pelas brumas do tempo.
Outra pausa para reverenciar um grande jornalista que foi meu chefe, Roberto Eduardo Xavier(hoje nome da biblioteca do Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues), Ariano, brabo como só ele, que ficava, toda manhã, quando eu tinha de 'parir' a súmula jornalística para a direção executiva do grupo onde eu era sua assistente técnica, lendo meus textos e fazendo severa crítica: tudo que aprendi de redação devo a ele. Inesquecível a sua mesa abarrotada de livros e todo seu conhecimento de literatura, do mundo e de jornalismo.
Imagino sua surpresa quando chegou do outro lado do véu e percebeu que, ora veja, a vida continua, eis que criticava e desdenhava o tempo todo o fato de eu ser holística, sensitiva e acreditar em astrologia e vida após a morte. Se bem que sua última crônica em ZH, sobre os Beija-flores, um pouquinho antes de desencarnar, já desenhava um velado reconhecimento de que tinha se enganado.
Criei alguns jornais, sendo que me lembro do 'Boca no Trombone' do SICOMRS, na década de noventa , o 'RS Música', de toda a primeira década dos anos 2000, e, mais recentemente, escrevo o Fortuna, jornal holístico de meu espaço terapêutico de nome homônimo.
Não consigo compactuar com as profecias do fim do jornal e do livro impresso. Duvido 'de o dó' que o romantismo dos jacarandás mimosos e flores roxas e amarelas da Praça da Alfândega, assim como os papos, chimarrões conversados, discussões calorosas, encontros que só a Feira do Livro proporciona, um dia tenham fim.
Assim como não abro mão de andar abraçada a um livro ou um jornal impresso, rua afora, na mão ou na sacola, e, a cada manhã, ler, enquanto tomo meu café preto, as primeiras notícias do dia, sabendo que há um elo entre eu, o jornalista que escreveu, o entregador e o reciclador de amanhã. Somos todos Um.


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